Oi, gente!

Bem, hoje irei contar a história do meu cabelo. rs Sim, o meu cabelo tem história, mas como assim contar a história do seu cabelo?

Não sei se vocês perceberam, mas sou eu nas fotos deste post. 🙂 Eu tenho um crespo enorme, mas não é sempre que uso meu afro, pois muitas vezes uso tranças, laces e extensões.

Extensão para quem não sabe vem de “extension” em inglês(que nada mais que um nome mais moderninho para implantes capilares).

Muitas vezes não uso meu cabelo natural, não é porque eu não gosto do meu cabelo ou algo do tipo, uso mesmo porque amo sempre está mudando de visual e com cabelos que não são o meus posso usar cores diversas sem que danifique o meu.

Recentemente fiz uma postagem falando sobre raspar a cabeça, para quem ainda não leu está aqui em mulheres carecas.

Hoje em dia me amo muito, inclusive meu cabelo, mas não foi sempre assim. Quando entrei na adolescência usei diversos tipos diferentes de química no meu cabelo. Tentava me encaixar em um padrão que não era meu.
Já fiz relaxamento, alisamento, permanente e até ferro de passar roupa já passei no cabelo. 😂 Eu rio agora, mas só Deus sabe como eu me sentia, pois mesmo com todas essas mudanças que já vivi na minha vida capilar na adolescência eu nunca estava satisfeita.

Na infância eu tinha complexo de inferioridade, pois sofria bullying na igreja, na escola, na rua. Em todos os cantos. Odiava ser criança e queria morrer. Acho que eu tinha até depressão, pois é muito estranho uma criança ter vontade de morrer.

( não postarei fotos dessa época
Até que em 2007, ano que entrei na faculdade, passei a usar tranças pela primeira vez, tranças estilo rastafari( pelo menos era assim que chamavam minhas tranças), trocava a cada 3 meses.

Quando usei as tranças pela primeira vez, amei o que vi no espelho, era como encontrar meu eu, era se olhar no espelho e ver a verdadeira identidade que esteve escondida por tanto tempo. A partir daquele momento passei a me reconhecer como negra. Foi maravilhoso, pois na infância e adolescência sofria muito a questão de saber quem era eu no mundo.
Sim, sei que pode parecer estranho para muitos, mas foi um conflito real na minha vida e acredito que muitas meninas negras já passaram por isso.
Por eu ter passado pelo processo do “tal colorismo,” tinha em minha vida diversas crises de identidade, vivia perguntando aos meus pais qual era minha cor. Para meu colega eu era morena, para minha vizinha eu era mulata, na TV e nas músicas chamavam pessoas da minha cor de marrom bombom, para meus tios eu era sarará.
Meu pai falava que eu era parda, pois era a cor que constava no Certificado de Reservista dele e temos a mesma tonalidade de pele. Minha família( parentes) são quase todos negros, mas meu bisavô era indígena.
Minha avó que é bem pretinha tinha e acho ainda tem muitas dificuldades de se ver como negra( devido ao preconceito que estas pessoas mais velhas passaram, eu até entendo ). Minha avó sempre teve o prazer de dizer que era descendente de índio, mas de negro não, mesmo sendo preta retinta. 😔 Eu sei que o Brasil é um país miscigenado e também que meu bisavô era indígena, sei que foi uma tentativa sistêmica racista de apagar o orgulho e história negra.

Na infância, eu sofri preconceito racial dentro da minha família, pois me chamavam de sarará crioulo como se fosse algo muito ruim. E na escola e na igreja eu sofri bullying por causa do meu cabelo crespo. 😒 Para uma criança é algo complicado vivenciar tudo isso.
Fiquei um bom tempo usando tranças- acho que uns 3 anos. Então quando resolvi tirar as tranças meu cabelo estava um crespo natural bastante volumoso.
Então o que fiz? Resolvi relaxar novamente, no início ficou até bonito, mas depois de uns meses a química parou de fazer efeito, meus fios começaram a quebrar e cair e ficou horroroso.
Voltei para as tranças novamente para tirar toda a química, depois resolvi usar extensão.  A primeira fez que fiz foi o famoso “nozinho”, depois passei a usar o costurado, que é o meu cabelo natural Crespo por baixo( em tranças nagô) e implante cacheado costurado nas tranças por cima.
Usava o mesmo tamanho que meu cabelo natural era, sendo que meu cabelo natural não é cacheado e sim crespo 4c.
Algumas vezes intercalava com as tranças rastafari novamente, depois de 2011 até a data atual eu nunca mais usei química para mudar a textura do meu cabelo. Usei descolorante e tonalizantes algumas vezes quando voltava com o natural sem extensão.

Em 2015 passei a usar a extensão Cacheada mais longa, usei até julho de 2016, depois disso usei umas tranças de duas cores, depois usei meu cabelo natural black power, recentemente usei trancas novamente por um mês, agora estou com meu cabelo natural novamente.
Resumindo, mudei muito de visual depois de adulta, já não tinha mais os problemas de identidade da infância e adolescência.
Mudo o visual porque gosto de inovar mesmo e penso que a liberdade está em você ser do jeito que quiser, embora nós, mulheres negras, temos uma forma muito delicada de lidar com cabelo, pois todos nós sabemos do racismo enraizado  em nossa sociedade. Onde o padrão de beleza sempre foi o eurocêtrico. Fazendo que muitas meninas e mulheres negras de cabelo “crespo” se sentissem feias, inferiores e sem referências na infância, pois até pouco tempo  não existia contos onde as princesas eram negras e poucas vezes víamos bonecas pretas ou qualquer outro tipo de representatividade.
Hoje, quando uma mulher negra consegue usar o cabelo natural não é porque está ” na moda”, como muitos pensam, porque afinal cabelo crespo, tranças não é moda, e sim identidade, é o encontro com a africanidade, é a libertação.
Eu sofri muito com esta questão de identidade. Inclusive por ter o cabelo crespo e o tom de pele um pouco mais claro que minhas primas . Demorei para me encontrar, mas graças a Deus hoje sou uma pessoa bem resolvida comigo mesma e hiperconsciente da minha negritude.
A questão é que a gente muitas das vezes tenta quebrar paradigmas , mas outras vezes acaba criando outros sem perceber.
Frequentemente lutamos para derrubar a ditadura do cabelo liso, mas se a pessoa é negra e resolver usar um outro tipo de cabelo que não é o cabelo natural, é excluído de determinados grupos da própria militância negra. No seriado Dear wither people tem uma personagem que passa exatamente por isto.
E no geral se a pessoa é negra e faz dreadlocks no cabelo ou até mesmo usa um afro sem cachos definidos é vista como “desleixada”, drogada( no caso dos dreads) que não penteia o cabelo, pedinte, pobretona e por aí vai. Este já é o racismo estrutural atuante na sociedade. O indivíduo pode até negar, mas ele não falaria ou teria o mesmo tipo de pensamento se visse uma pessoa dentro dos “padrões.” Os estigmas estão atrelados ao preconceito.
Ninguém é obrigado a achar tudo ou nada bonito, mas o respeito às diferenças é fundamental. Temos que aprender desconstruir e ter outros pontos de vista. Não é porque a pessoa tem determinado tipo de cabelo ou pele que ele deve ser estereotipado e posto dentro de caixas.

Com estes rótulos que continuam criando podemos perceber que não temos a liberdade para escolher um outro modelo sem que seja criado um outro padrão. O que continua sendo lamentável.

Devido aos modelos que criam em torno de nós mulheres, que despertou em mim a vontade de passar a máquina no meu cabelo. Sei que não é uma tarefa fácil, por isso mesmo estou compartilhando aqui uma ideia que desejo amadurecer até o fim deste ano.

Mesmo vivendo em uma sociedade com tantas modernidades e acontecimentos, e até mesmo tantas “ mentes abertas” ainda nos deparamos com preconceitos. Ou seja, realmente precisamos quebrar paradigmas e sermos realmente livres. Não adianta nada eu deixar uma ditadura e criar outra.

Cortar o cabelo curtinho exige bastante coragem, personalidade e estilo, pois ainda vemos os pré-conceitos do tipo; cortou
o cabelo é lésbica ou tem alguma enfermidade. Aplaudo de pé estas meninas e mulheres que precisam cortar o cabelo por causa de alguma enfermidade, e desejaria muito poder abraçá-las como demonstração de apoio e carinho, mas o que trago aqui é o julgamento alheio de estereotipar as pessoas e nem permitir a liberdade que cada um tem. Ser lésbica não é algo ruim, é a orientação sexual de mulheres e precisa ser encarada com naturalidade.

Infelizmente, no caso de pessoas enfermas não é uma questão de escolha, mas isso não significava que a pessoa deve ser vista como inferior por não ter cabelo. O cabelo é uma matéria morta em nosso corpo, o que temos que valorizar nas pessoas é o que se tem por dentro e não por fora.
Muitas pessoas esquecem que algumas mulheres escolhem cortar o cabelo por vontade de mudança, de desapego, de desconstrução ou simplesmente porque quer se sentir livre.

Vi em um blog a autora do texto dizendo que ser careca obriga a mulher ser mais feminina.
Desculpa, mas eu não concordo nem um pouco, embora eu seja bem feminina, pois gosto de maquiagem, unhas feitas, acessórios entre outras coisas, tenho que dizer que não somos obrigadas a nada. Se a mulher quiser ser feminina ela será, se não quiser também não será, pois não é um cabelo que vai dizer se você é mulher ou não.

Como diz Simone Beauvoir: Não nascemos mulheres, tornamo-nos mulheres.
Ou seja, a feminilidade é um modelo criado dentro de uma sociedade totalmente patriarcal, onde há uma criação de gênero, feminino versus masculino; isto é coisa de mulher, isto é coisa de homem, carregada de todo machismo que a gente conhece, pois são aprendizagens e repetições de gestos, postura, maneiras comportamentais que ditam como uma mulher deve ser e a posição que ela deve ocupar ao longo da vida dentro de determinada cultura.
Através desta reflexão percebemos que a feminilidade é algo construído socialmente. E não é um cabelo que vai mudar isso.A pessoa pode ter o cabelo curto e continuar feminina, mas se ela quiser. Sou muito adepta da liberdade. E luto pela igualdade.

Não é um cabelo que vai definir a sexualidade de uma pessoa. Este é um tipo de pensamento bem retrógrado, mas estamos aí para tentar conscientizar as pessoas que elas podem escolher pensar diferente.

Muitas mulheres ficam carecas e continuam maravilhosas e se sentindo ainda mais plenas.
E sem falar que ser careca facilita muita coisa, só de não ter mais que ficar se preocupando em fazer mil coisas no cabelo. já acordar penteada deve ser incrível. Acho que ser careca vai além de demonstrar uma personalidade forte, é sinônimo de praticidade.

E você já raspou as madeixas alguma vez?.
Qual é sua opinião sobre raspar o cabeça? Você não acha que é importante estas desconstruções sociais?
O que acha do visual? Conhece alguém que tem este estilo? Deixe aqui sua dica, sugestão, opinião, pois ainda estou amadurecendo a ideia e em dezembro saberei se é isso mesmo que quero. E vou adorar ler o que meus amigos blogueiros acham. Um beijo e até a próxima!🌹

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